A ONU alertou, nesta última sexta, 9, que o Iêmen retrocedeu para uma guerra em grande escala e que o prazo para impedir uma catástrofe maior está se esgotando. Dados levados ao Conselho de Segurança indicam 200 mil deslocados desde o início de agosto, o maior número desde a trégua de 2022.
A escalada ocorreu depois que o Ansar Allah, grupo também chamado de houthis, avançou na região de Mokha e na costa de Bab al-Mandeb. O movimento levou a confrontos nas montanhas ao sul e a oeste de Taiz, que alcançaram Lahj; desde agosto, até 46 civis morreram e mais de 130 ficaram feridos. As crianças foram maioria entre os mortos e corresponderam a um terço dos feridos, segundo a ONU.
A situação pressiona a saúde e a nutrição: a ONU calcula que 2,2 milhões de menores de cinco anos enfrentam desnutrição aguda, e o sistema de saúde está à beira do colapso absoluto, enquanto aumentam os casos suspeitos de cólera e sarampo. O Unicef encontrou desnutrição aguda em mais de 25% de quase 2.900 crianças examinadas por equipes móveis; 200 casos foram classificados como graves. “Estamos muito preocupados com um aumento visível da desnutrição aguda entre as crianças”, disse Akhil Iyer, representante do Unicef no Iêmen. O retrato é parcial, porque as equipes só alcançaram áreas acessíveis.
A resposta humanitária sofre com a escassez de recursos: a ONU informou ter levado ajuda emergencial a 131 mil pessoas deslocadas, mas o apelo de financiamento havia alcançado apenas 22% da meta. Amy Pope, diretora-geral da Organização Internacional para as Migrações (OIM), declarou que “as pessoas estão correndo para salvar suas vidas e não encontram nenhum lugar seguro para onde ir”. A OIM informou ainda que mais de 3.700 pessoas fizeram a travessia marítima até Djibuti, enquanto o Programa Mundial de Alimentos relatou que três em cada quatro famílias passavam fome em algumas regiões do país.
Os registros de deslocamento usam períodos de referência diferentes. A estatística apresentada ao Conselho de Segurança contabiliza 200 mil pessoas desde o início de agosto, enquanto a OIM informou, na quarta, 7, que havia 76 mil deslocados em meados de setembro e mais de 200 mil naquele momento. Quase todas as fugas ocorreram depois que os combates começaram, no início de setembro; dez províncias registraram deslocamentos, e Taiz foi a mais afetada. O Unicef estimou que cerca de 71 mil crianças tiveram de deixar suas casas nas três semanas anteriores.
A diferença entre as estimativas de 2,2 milhões de crianças decorre do período de referência. Para a projeção anual do Unicef, 2,2 milhões de menores de cinco anos desenvolverão desnutrição aguda, e a forma grave deverá atingir mais de meio milhão. A ONU não explicou como calculou os totais de deslocados, pessoas com desnutrição, mortos e feridos.
Após a trégua de 2022, os houthis voltaram a combater as forças governamentais do Iêmen, que recebem apoio saudita. Segundo a ONU, as ameaças a embarcações mercantes associadas à Arábia Saudita na área do Mar Vermelho ainda prejudicam a navegação mundial.


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