Trégua entre EUA e Irã alivia mercados, mas efeitos sobre inflação e juros têm limites, dizem analistas

A sinalização de um acordo entre Estados Unidos e Irã para encerrar o conflito no Oriente Médio trouxe alívio aos mercados globais e provocou recuo recente nos preços do petróleo. A resolução diplomática reduziu as tensões na região e abriu caminho para a normalização do fluxo comercial de energia pelo Estreito de Ormuz. Especialistas, porém, avaliam que o impacto da trégua sobre a inflação e a trajetória dos juros, no Brasil e no mundo, enfrenta desafios macroeconômicos persistentes.

No cenário internacional, o otimismo com a reabertura do Estreito de Ormuz ao tráfego de navios já tem impacto direto nas projeções de custos. Segundo Shinichiro Fukui, gestor de investimentos e sócio da Stratton Capital, a retomada do fluxo normal de petroleiros reduz a pressão sobre os preços da commodity e, por consequência, a pressão inflacionária global.

Para Fukui, no entanto, o conflito deixou evidente a vulnerabilidade das cadeias globais de suprimento. O gestor avalia que economias menores e países importadores devem repensar sua segurança energética e passar a formar reservas próprias de petróleo, da mesma forma que acumulam dólares e ouro. Esse movimento deve gerar uma demanda extra no futuro, mantendo os preços pressionados. Segundo ele, esse efeito sobre a inflação é praticamente inevitável: nos próximos meses, é esperada uma onda inflacionária mais forte, que tende a se normalizar depois. Diante desse novo equilíbrio entre oferta e demanda, Fukui considera pouco provável que o barril retorne ao patamar de US$ 60 observado antes da guerra.

No Brasil, o alívio do petróleo no mercado internacional tem efeito limitado pelas dinâmicas internas. Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, explica que não há repasse automático das variações globais para os preços nas bombas, devido à política de preços própria adotada pela Petrobras. Segundo ele, as expectativas de inflação para 2026, atualmente entre 5,20% e 5,30%, já consideravam um cenário com o barril variando entre US$ 85 e US$ 90.

Saravalle projeta que, caso o petróleo caminhe para abaixo de US$ 80 nos próximos dias, as expectativas de inflação poderiam ser revisadas para baixo de 5%. Mesmo assim, o índice permaneceria acima do teto da meta estipulada pelo Banco Central. Segundo o estrategista, um cenário estruturalmente mais benigno exigiria que as cotações do petróleo recuassem para perto de US$ 75, possibilidade que ele considera viável, mas ainda pouco provável no curto prazo.

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