Um vídeo de cerca de 15 minutos publicado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro nas redes sociais escancarou um conflito que já fermentava nos bastidores do bolsonarismo há meses. Na gravação, Michelle acusou o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro de tê-la desrespeitado, maltratado e humilhado, e revelou não falar com o enteado desde o ano passado. Segundo ela, Flávio chegou a dizer que ela não entende nada de política, e o episódio agora ameaça desestabilizar a pré-campanha do senador a apenas 30 dias da convenção do PL, marcada para 25 de julho.
A origem declarada do conflito está nas articulações eleitorais para 2026 no Ceará. Michelle se posicionou contra uma aliança do PL com o ex-governador Ciro Gomes, filiado ao PSDB, e defende o apoio ao senador Eduardo Girão (Novo) na disputa pelo governo estadual. A ex-primeira-dama também apoia a vereadora Priscila Costa para uma vaga ao Senado, enquanto setores ligados a Flávio preferem outro nome. As divergências se estendem a Santa Catarina, onde Michelle sinalizou preferência por nomes diferentes dos indicados pela ala do senador.
Diante da repercussão, Flávio negou publicamente ter desrespeitado a madrasta, pediu desculpas caso ela tenha se sentido ofendida e afirmou ter tentado contato antes da publicação do vídeo. Em seguida, Michelle voltou às redes para tentar amenizar o clima, declarando que não guarda mágoa do enteado e que não há briga ou competição entre lideranças da oposição. Nos bastidores, porém, aliados de Michelle afirmaram que Jair Bolsonaro tinha conhecimento prévio do vídeo e optou por não vetar a publicação.
Para o cientista político Rudá Ricci, o movimento foi calculado: ao postar o vídeo 30 dias antes da convenção partidária, Michelle se colocou como possível substituta de Flávio na disputa presidencial. “Ela abriu uma disputa interna violentíssima contra a candidatura do Flávio. Isso cria um problema enorme para o PL”, avaliou Ricci. O episódio ainda aprofunda o desgaste de Flávio junto ao eleitorado evangélico, segmento estratégico do bolsonarismo que, segundo pesquisa do Datafolha, vinha abandonando sua candidatura gradualmente.
O impacto nas redes foi imediato e expressivo: o caso gerou mais de 1.100 conteúdos monitorados entre YouTube, Instagram e Facebook, com 2,3 milhões de interações nas primeiras horas. Influenciadores e militância foram decisivos para transformar o vídeo em arena de disputa política, respondendo pela maior parte das interações registradas. O racha expõe um bolsonarismo que chega a 2026 sem comando incontestável, com diferentes alas disputando a narrativa e o espólio político do ex-presidente.


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