Um lago formado após a grande enchente que atingiu a região do Himalaia, na fronteira entre Nepal e Tibete, está subindo e corre o risco de transbordar, segundo a autoridade nepalesa responsável pela gestão de desastres. O órgão fez um alerta nesta quinta, 27, para que moradores, passageiros e equipes de resgate se mantenham afastados das margens do rio e de outras áreas consideradas perigosas.
A preocupação aumentou após a China informar que cerca de 3 milhões de metros cúbicos de água, volume equivalente a aproximadamente 1,2 mil piscinas olímpicas, devem chegar nos próximos três dias a um lago já represado do lado chinês da fronteira. Há risco de rompimento da barreira, com previsão de pico de vazão por volta de 1º de setembro. Imagens aéreas divulgadas por uma equipe de resgate chinesa mostram grande quantidade de água barrenta acumulada contra uma barreira formada por pedras e detritos.
O desastre ocorreu na quarta, 26, quando uma enorme massa de lama e rochas desceu em direção a um rio na região do Himalaia, provocando inundações em cidades e vales. Quase 1,5 mil pessoas continuam desaparecidas, entre elas pelo menos 800 estrangeiros, segundo as autoridades. A cadeia de destruição também atingiu seis grandes usinas hidrelétricas e estruturas localizadas no centro comercial do Porto de Gyirong, além de alterar os leitos dos rios a mais de 100 quilômetros de distância, próximo à fronteira com a Índia.
Embora a causa exata ainda esteja sendo investigada, cientistas acreditam que o desastre possa ter começado com uma grande avalanche de gelo e rochas nas encostas do pico Langtang Lirung, no Nepal. A massa teria descido até o rio Lhende Khola, no lado tibetano, desencadeando uma sequência de riscos e danos que atravessou a fronteira.
Especialistas afirmam que as mudanças climáticas podem ter contribuído para a instabilidade nas altas montanhas, embora alertem que elas não devem ser apontadas como a única causa imediata do desabamento. O aumento das temperaturas pode acelerar o derretimento das geleiras e da neve, reduzir o suporte do gelo nas encostas, aumentar o volume de água de degelo e alterar os ciclos de congelamento e degelo, enfraquecendo as montanhas.
Para o cientista Simon Cox, do programa Mountains to Sea, da Earth Sciences New Zealand, essas mudanças tornam mais frequentes os grandes desabamentos e os chamados riscos em cascata. Já o especialista Farooq Azam, do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD), avalia que o intenso derretimento da neve, somado à atividade sísmica, pode ter contribuído para a avalanche inicial de rochas e gelo.
A região do Hindu Kush e do Himalaia vem registrando aumento na frequência e na intensidade de inundações, deslizamentos, avalanches e secas. Segundo dados das Nações Unidas divulgados em 2023, o Nepal perdeu quase um terço de sua cobertura de gelo em pouco mais de três décadas, enquanto suas geleiras passaram a derreter 65% mais rapidamente. Para os especialistas, o desastre desta semana pode ser um exemplo de como terremotos, degelo, perda de geleiras e instabilidade das encostas podem se combinar e provocar consequências ainda mais devastadoras.



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