O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta, 5, a renúncia ao cargo enquanto a Câmara analisava um processo de impeachment contra ele. Com a saída, o vice-presidente deve assumir o país em meio à crise do Ueno Bank, cujo fechamento deixou milhares de clientes sem acesso ao próprio dinheiro.
Os 2,9 milhões de correntistas do Ueno equivalem a cerca de 60% da população adulta do país. Segundo a Asimcopar, a cada três transações feitas pelas grandes redes varejistas do país, duas passam por contas do banco, e a entidade prevê semiparalisação do mercado comercial.
Na última quarta, 4, o Banco Central do Paraguai (BCP) decretou o fechamento do banco, depois de iniciar, na última terça, 3, um procedimento de resolução bancária. Com a medida, os serviços foram suspensos de imediato, e clientes relataram não conseguir usar caixas eletrônicos nem acessar o banco pela internet. O índice de solvência do Ueno caiu para 5,56%, menos da metade do mínimo regulatório de 12%.
O fundo garantidor cobre até US$ 38 mil por pessoa, o equivalente a 75 salários-mínimos, mas o BCP terá 15 dias para entregar a quantia. Já o governo anunciou a devolução de parte dos depósitos das pessoas afetadas. O próprio BCP afirmou que 97% dos depositantes estariam totalmente cobertos, mas a agência de classificação de risco Moody’s aponta que só 30% dos depósitos estavam dentro do limite da garantia.
Em mensagem nas redes sociais, Santiago Peña justificou a renúncia com a estabilidade do país. “Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar as nossas instituições democráticas”, afirmou Peña, presidente do Paraguai. Ele também disse que quer pedir desculpas ao povo, caso tenha falhado em algum momento, e afirmou que sua prioridade é a tranquilidade dos paraguaios que confiaram economias ao sistema financeiro.
O processo de impeachment contra Peña aparece com estágios diferentes nos relatos: uma leitura fala em discussão sobre a abertura do processo, enquanto outra diz que até a base governista havia anunciado voto a favor. Na sequência, os deputados rejeitaram por 48 votos a 30 um pedido de impeachment contra o vice-presidente, e isso abre caminho para que ele assuma a Presidência. A posse formal ainda não foi confirmada, e as informações disponíveis não trazem ato que formalize a aceitação da renúncia pelo Congresso.
Durante seu discurso, a deputada Jazmín Narváez, do Partido Colorado, afirmou: “Aparentemente, enquanto faço meu discurso, está sendo divulgada a renúncia do presidente em exercício, Santiago Peña”.
A oposição acusa o presidente de ter tomado “decisões regulatórias supostamente favoráveis ao Ueno Bank” e de concentrar recursos previdenciários na instituição. A deputada Johanna Ortega, do Partido País Solidário, afirmou que o grupo alerta sobre “conflitos de interesses” e sobre “o crime de gestão em proveito próprio”. Nas informações disponíveis, não há investigação formal, denúncia oficial ou ato oficial contra o presidente.
A ligação do presidente com o banco é outro ponto da crise. Relatos da imprensa indicam que Peña foi acionista, ou investidor de uma holding, do grupo que controla o Ueno Bank até março de 2025. Esse grupo, o Grupo Vázquez, figura como controlador, e seu principal acionista é Federico Miguel Vázquez, apontado como fundador. Não há documento oficial que confirme o percentual ou a natureza da participação.
Segundo o BCP, as investigações apontaram falhas na análise de risco de crédito e informações financeiras inconsistentes na concessão de empréstimos, além de operações com empresas ligadas aos acionistas. Segundo o Ministério Público, foram pedidas prisões de oito pessoas, entre elas a do presidente do Ueno Bank, Juan Manuel Gustale. Ainda não há confirmação de quantas dessas pessoas foram presas.
O presidente do BCP, Carlos Carvallo, também renunciou ao cargo após a liquidação do banco. Até 2023, ele dirigiu o Ueno, antes de chegar à presidência do Banco Central. Horácio Cartes, presidente do Partido Colorado e ex-presidente, afirmou que a legenda não estará ao lado “do latrocínio [roubo] de fundos públicos, privados e dos aposentados”.
O Partido Colorado, de direita conservadora, comanda o país há cerca de sete décadas, e Peña é filiado à legenda. O único intervalo nesse período foi o governo de Fernando Lugo, retirado do cargo por impeachment em 2012. Peña assumiu o cargo em agosto de 2023, com mandato previsto até 2028. Com a renúncia, ele se torna o 3º presidente paraguaio a deixar o cargo antes do previsto, após Raúl Cubas Grau, em 1999.
Segundo o antropólogo Salvador Schavelzon, da Unifesp, grupos da direita brasileira admiram o Paraguai, onde há presença do agronegócio brasileiro e de agências do Banco do Brasil. Segundo análises sobre o caso, ele também abala a reputação do Paraguai como destino de capital estrangeiro, em boa parte vindo do Brasil. Nas informações disponíveis, não há posição do governo brasileiro sobre o impacto do caso no sistema financeiro.





