A alta da dívida pública brasileira voltou ao centro do debate econômico após a eleição presidencial. Enquanto parte do mercado defende cortes de despesas para estabilizar as contas públicas, economistas de linha desenvolvimentista argumentam que juros elevados têm peso maior sobre o endividamento e alertam para os efeitos de uma redução ampla dos gastos sobre áreas como saúde, educação e assistência social.
A dívida bruta do governo passou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2022, para cerca de 82,9% em agosto deste ano. Projeções reunidas pelo Ministério da Fazenda apontam que o indicador pode encerrar 2026 próximo de 83,4% do PIB e chegar a 87% em 2027, cenário que mantém a trajetória fiscal entre os principais desafios do próximo mandato.
Economistas ouvidos pela Agência Brasil contestam a ideia de que a redução das despesas primárias seja a principal solução. Para eles, o peso dos juros precisa ser considerado na análise: nos 12 meses encerrados em agosto, o setor público gastou cerca de R$ 1,1 trilhão com juros, equivalente a 8,86% do PIB. Ao longo de 2026, os juros nominais foram o principal fator de aumento da relação entre dívida e PIB.
A professora Simone Deos, da Unicamp, defende que o debate deve priorizar a qualidade e a eficiência do gasto público, sem comprometer políticas sociais. Já o professor Fernando Henrique Lemos Rodrigues, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, argumenta que investimentos públicos podem estimular renda, emprego e arrecadação, ajudando posteriormente a compensar parte do gasto inicial.
O debate ocorre enquanto o governo mantém contenção de aproximadamente R$ 16,1 bilhões em despesas para cumprir as regras fiscais de 2026. De um lado, defensores de um ajuste mais forte sustentam que superávits primários são necessários para estabilizar a dívida; de outro, economistas defendem que a redução dos juros e uma estratégia de crescimento também devem fazer parte da solução.


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