Hackers desviam US$ 6,3 bilhões da Binance; saques são suspensos

Logotipo da Binance em tela de celular. Foto: Bastian Riccardi (Pexels)
FOTO: DIVULGAÇÃO

Hackers desviaram cerca de US$ 6,3 bilhões de carteiras da Binance na última quinta, 29, segundo estimativa da própria corretora de criptomoedas. A empresa suspendeu saques e depósitos enquanto faz verificações de segurança.

Segundo a TRM Labs, empresa de análise de blockchain, o atacante movimentou a maior parte dos valores em torno de 20 minutos, a partir das 17h05 no horário de Brasília, em 10 redes diferentes. A empresa calcula o total em US$ 6,36 bilhões a preços de cada transferência e em US$ 6,23 bilhões a preços atuais. Antes da nota oficial, observadores do mercado estimavam pelo menos US$ 2 bilhões drenados das carteiras conectadas à internet, as chamadas hot wallets.

Em nota oficial, a Binance confirmou um incidente de segurança e estimou o impacto total em cerca de US$ 6,3 bilhões, dos quais cerca de US$ 3 bilhões estavam congelados na blockchain até aquele momento. Como medida de precaução, a empresa suspendeu saques em várias redes e também depósitos, além de revogar a autorização do endereço afetado. Relatos iniciais diziam que os depósitos não tinham sido afetados, o que a nota contraria.

Em publicação no X, o co-CEO da Binance, Richard Teng, afirmou: “Seu dinheiro está seguro e estamos cobrindo todas as perdas”. A empresa diz que os fundos dos usuários estão seguros e que as perdas serão cobertas pelo fundo de proteção SAFU, que tem US$ 1 bilhão aplicado somente em bitcoin, e por recursos próprios.

Os valores congelados variam conforme o momento da contagem. A Binance disse que o total verificado chegou a US$ 2,54 bilhões, e a TRM contou cerca de US$ 2,7 bilhões congelados na blockchain até as 00h30 UTC de sexta, 30, horário universal de referência. Tether, Circle, Ripple e World Liberty Financial estão entre as empresas que bloquearam fundos. Segundo Paolo Ardoino, CEO da Tether, a companhia bloqueou USDT, stablecoin atrelada ao dólar, em valor superior a US$ 1,567 bilhão.

Yi He, cofundador da Binance, disse que a Ripple ajudou a conter cerca de US$ 200 milhões. A TRM confirmou o congelamento de cerca de US$ 40,5 milhões em stablecoins da Ripple. Para a TRM, o atacante ainda controla cerca de US$ 2,4 bilhões em ativos fora do alcance de qualquer emissor.

A Binance espera retomar os saques nas próximas 48 horas, prazo que é expectativa da empresa e ainda não está confirmado. Não há informação sobre o destino dos cerca de US$ 3,3 bilhões que não foram congelados.

Segundo a investigação inicial da Binance, o incidente pode ter envolvido o laptop comprometido de um engenheiro de DevOps, profissional que cuida da infraestrutura de software. O acesso teria permitido a um invasor entrar em um contêiner de serviço e realizar saques não autorizados. A empresa diz não ter encontrado indício de que chaves privadas de carteiras tenham vazado. Ela também diz investigar o caso em conjunto com autoridades policiais e empresas de inteligência em blockchain. A análise técnica detalhada, prometida pela empresa, ainda não foi publicada.

Segundo a TRM, a preparação começou pelo menos 36 horas antes do roubo, com pequenos saques do Tornado Cash, serviço que embaralha transações na blockchain, para uma carteira operadora. Antes da execução, as autorizações foram assinadas em lote.

Atribuição à Coreia do Norte

A TRM atribui o ataque ao TraderTraitor, unidade de hackers da Coreia do Norte, e diz fazer a avaliação com alta confiança, com base em dados de transações na blockchain e de outras fontes. A Chainalysis, outra empresa de análise, também aponta o país, mas a análise dela não foi consultada diretamente pela reportagem. A atribuição vem de empresas privadas, e não de governos. A Binance não comentou a atribuição nas informações apuradas.

O FBI atribuiu a Pyongyang o ataque de 2025 à corretora Bybit, e a TRM diz que o padrão deste caso coincide com o daquele. Segundo autoridades dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, o país usa há anos unidades cibernéticas ligadas ao Estado para espionagem e roubo financeiro. A Coreia do Norte nega rotineiramente essas acusações e não respondeu a pedidos de comentário sobre o caso.

Em 2025, criminosos roubaram cerca de US$ 2,9 bilhões em quase 150 ataques, segundo a TRM. Em um incidente separado, ocorrido no mesmo dia, a Polymarket teve fundos de usuários roubados após o comprometimento de um fornecedor terceirizado.

Na sexta, 30, os preços caíram no pregão asiático. O bitcoin chegou à mínima de seis semanas, de US$ 76.368, e o ether, à mínima de dois meses, de US$ 2.178, com quedas superiores a 3%. O BNB, moeda digital da própria Binance, recuou 5% em 24 horas, para US$ 709,70. A Coinbase afirmou não ter sido afetada, e suas ações caíram 4,8% no pregão estendido nos EUA.

As informações apuradas não tratam de clientes, contas ou operação da Binance no Brasil. Segundo o relatório anual de 2025 da própria empresa, a corretora tem 335 milhões de usuários registrados e tinha cerca de US$ 162,8 bilhões em ativos de custódia, isto é, valores guardados pela própria corretora.

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