Acordo Mercosul-UE amplia exportações, e pode pressionar preços de alimentos no Brasil

A entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia nesta sexta, 1º, promete impulsionar as exportações brasileiras ao eliminar tarifas de importação para mais de 80% dos produtos vendidos ao bloco europeu. A medida amplia a competitividade das empresas nacionais em um mercado de alto poder de compra. a iniciativa do Governo Federal, no entanto, levanta um alerta: o impacto indireto no bolso do consumidor brasileiro, especialmente no setor de alimentos.

Segundo estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), mais de 5 mil produtos brasileiros passam a ter tarifa zero já na fase inicial do acordo, com predominância de bens industriais. Ainda assim, segmentos do agronegócio, – especialmente proteínas como as carnes bovina, suína e de frango -, também tendem a se beneficiar do acesso facilitado ao mercado europeu.

Do ponto de vista econômico, a lógica é direta: com menos barreiras comerciais, exportar se torna mais rentável. Empresas passam a comparar o preço obtido no exterior, em euro, com o valor praticado no mercado interno, em real. Quando a diferença favorece o mercado externo, parte da produção tende a ser direcionada para fora do país.

Esse movimento não significa um desabastecimento interno, mas altera o equilíbrio entre oferta e demanda. Com uma parcela maior da produção destinada à exportação, a disponibilidade relativa de produtos no mercado doméstico tende a diminuir. Como consequência, os preços sobem e prejudicam o consumir que paga mais caro.

Esse fenômeno já foi observado em outros momentos da economia brasileira, especialmente em períodos de alta das commodities do agro. O aumento das exportações de carnes e grãos, combinado com câmbio desvalorizado, contribuiu para a elevação dos preços internos, pressionando índices de inflação, como o IPCA.

No caso atual, o risco está justamente nesse efeito indireto. Alimentos têm peso relevante na composição da inflação, e pequenas variações na oferta podem gerar impactos significativos nos preços. Assim, mesmo que o acordo seja positivo para a balança comercial, — ao estimular exportações e entrada de divisas, ele pode, simultaneamente, gerar pressão inflacionária no curto prazo.

O impacto do acordo não será uniforme, a maior parte dos produtos beneficiados imediatamente pelo acordo é industrial, o que tende a favorecer a indústria brasileira.

As grandes empresas do setor agropecuário operam com lógica global e tendem a priorizar mercados mais rentáveis. Isso não significa abandono do mercado interno, mas sim uma redistribuição estratégica da produção, que pode reduzir a oferta relativa doméstica e sustentar preços mais elevados.

Enquanto o acordo amplia oportunidades para exportadores brasileiros, e melhora indicadores macroeconômicos, ele trazer efeitos colaterais para o consumo interno, que mais uma vez é a ponta frágil do sistema, a de menor importância.

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