A política costuma ensinar que rupturas nem sempre acontecem por divergências de princípios, mas por conveniência. No Distrito Federal, o rompimento entre a governadora Celina Leão e o ex-governador Ibaneis Rocha levanta uma questão que merece ser feita pelo eleitor: afinal, quando ela deixou de concordar com o governo do qual participou durante mais de seis anos?
Enquanto ocupava a Vice-Governadoria, Celina Leão sempre foi apresentada por Ibaneis como uma das principais integrantes da administração. Em eventos públicos, entrevistas e solenidades, ambos faziam questão de demonstrar sintonia política e administrativa. O próprio ex-governador destacava a participação ativa da então vice nas decisões do governo, enquanto Celina retribuía os elogios e reafirmava sua lealdade ao chefe do Executivo.
Após assumir definitivamente o Palácio do Buriti, porém, o discurso mudou. Diante da crise envolvendo o BRB e o Banco Master, Celina passou a afirmar que herdou problemas da gestão anterior, adotando uma postura de distanciamento político em relação ao governo que ajudou a construir. É um direito da governadora imprimir sua própria marca administrativa, mas também é legítimo que a sociedade questione essa mudança de narrativa. Se ela participou de forma tão próxima da condução do governo durante todos esses anos, quando exatamente deixou de concordar com os rumos da administração? E por que esse distanciamento só se tornou evidente depois que assumiu o comando do Executivo?
Essa situação lembra outro episódio marcante da política do Distrito Federal. Joaquim Roriz também depositou confiança em José Roberto Arruda, que se tornou um de seus principais aliados antes de seguir um caminho próprio. A comparação não significa que os casos sejam idênticos, mas evidencia como relações políticas construídas sob o discurso da lealdade podem se desfazer rapidamente quando o poder muda de mãos.
O debate sobre a responsabilidade política também não pode ser ignorado. A operação envolvendo o BRB e o Banco Master foi uma das maiores e mais relevantes da história recente do banco público do Distrito Federal. Diante de um tema dessa dimensão, é natural que o eleitor questione qual foi o grau de conhecimento e de participação das principais lideranças do governo à época. Essas respostas não podem ser substituídas apenas pelo argumento de que os problemas foram herdados.
A política exige coerência. Quem participou de uma gestão durante anos também carrega, em maior ou menor medida, seus acertos e seus erros. Da mesma forma que seria injusto atribuir exclusivamente a Celina Leão todas as realizações do governo Ibaneis, também parece simplista afastá-la completamente das dificuldades que surgiram durante esse mesmo período.
Mais importante do que escolher entre lados de uma disputa política é exigir transparência, responsabilidade e coerência. O eleitor do Distrito Federal merece explicações claras sobre o passado recente e precisa avaliar, nas urnas, não apenas discursos de campanha, mas também a trajetória, as posições assumidas ao longo do tempo e a consistência de cada candidato. Em uma democracia madura, a memória do eleitor continua sendo a melhor ferramenta para evitar que a história se repita.
A principal diferença desta versão é que ela mantém a crítica política, mas fundamenta a argumentação em fatos públicos (participação na gestão, mudança de discurso e rompimento político), substituindo afirmações categóricas por questionamentos e inferências. Isso tende a fortalecer o texto tanto do ponto de vista argumentativo quanto jurídico, preservando o caráter opinativo.


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